Adenáuer
Novaes Fala Sobre
Adenáuer Marcos Ferraz
Novaes cursou Filosofia na Universidade Católica de Salvador e Psicologia na
Universidade Federal da Bahia; é psicólogo clínico e presidente do Centro Espírita
da Casa de Redenção Joanna de Angelis. Ministra cursos terapêuticos e com
atendimento clinico individual. Sua formação é Junguiana.
Como
o senhor define, como filósofo, psicólogo e espírita, o limite entre o
conceito religioso e o psicológico na vida das pessoas?
Adenáuer Novaes — Há
um limite muito claro entre o religioso e o psicológico. A psicologia nasceu na
psiquiatria, da psicopatologia e da fisiologia. É uma ciência com objeto de
estudo. Hoje a psicologia é a ciência do comportamento humano com várias
escolas do processo de ser e viver. E a religião tem o composto transcendental,
uma busca de transcendência do mundo com a busca do divino, do sagrado. São
objetos distintos de percepção. Esse casamento nem sempre e possível, porque
ha um sectarismo tanto de um lado quanto de outro. Mas há uma distinção muito
clara.
A
realidade mostra o uso, por leigos, misto da religião e da psicologia para tentar dirimir o sofrimento de pessoas, para aconselhamento. Como o senhor vê o uso
leigo desses conceitos ?
Adenáuer - O aconselhamento, ou atendimento de pessoas em um ambiente religioso sem o devido preparo, sem ciência, só com empirismo ou boa vontade, induz a muitos equívocos. A falta de conhecimento sobre a psique humana é principal obstáculo. Em alguns casos o atendimento agrava a situação do individuo, exatamente pela ausência de método cientifico. Muitas vezes a cura se dá pela auto-sugestäo e não pela interferência da religião. O ideal é o encaminhamento das pessoas para o tratamento especifico, o preparo das pessoas que atendem nessas igrejas. Ao se identificar com clareza se o problema é apenas de ordem religiosa, essas pessoas já estarão fazendo bem aos outros.
Mas
muitas igrejas persistem então
nesse equivoco de tratar
problemas com empirismo?
Adenáuer
- É um grande equivoco.
Porque as instituições religiosas não se preparam, em geral, para isso e
invadem o campo profissional técnico. Da mesma forma a psicologia também
deveria se permitir uma percepção do ser humano mais abrangente do que o faz.
A filosofia costuma
fazer uma definição dos séculos por fatos
marcantes. Como o espírita e filósofo vê essas avaliações?
Adenáuer
- Vejo
o século XVIII como o grande, aquele que ainda é presente e
norteia o século XXI. Pra mim não
ocorreram grandes avanços no século XX. As luzes surgiram no século
XVIII, no campo da ciência, da
religião. As descobertas do século XX foram só aperfeiçoamentos, só um estágio
maior de percepção. A visão de que o século XX é das guerras é uma visão
particularizada, porque poderia ser o século high tech, da teoria sistêmica.
Os séculos XIX e XX foram pobres, foram continuidade.
Como
o filósofo Novaes reflete sobre o paradoxo da história, do homem
que avança sobre tecnologias, mas sofre com seu próprio
flagelo, com a fome, a morte?
Adenáuer
— Vejo que a tecnologia ainda é
muito incipiente, muito pobre, mesmo com tantos avanços. 0 ser humano que vai a
Lua com um equipamento tecnologicamente sofisticado e o mesmo ser humano que
mata, que rouba, que massacra. Ainda é o ser humano que se desconhece, que
destrói, que liquida. 0 ser humano está saindo para fora do Universo impotente
em relação a si mesmo. Está fugindo de si mesmo. Nós ainda vamos avançar
para nos conhecermos, para ver que temos um legado interno Imenso a ser
descoberto. Isso são fases. Para entendermos a história é necessário vermos
que a Águia Americana está pousando. 0 apogeu americano não dura mais cinqüenta
anos. Ela vai acabar tendo que aceitar que não é rapina. A pobreza interior
do ser humano mata mais que a fome.
0
senhor proferiu palestra relacionamento a psicologia do Evangelho. 0 senhor trata da ciência ou dos conceitos em
relação ao livro sagrado?
Adenáuer
— Não trato o Evangelho como uma ciência
em relação a psicologia. Trato a psicologia do Evangelho como mensagem, como
uma crença, um fio,
uma linha. A psicologia do Evangelho é a psicologia da pessoa, da alma
humana. Não é a psicologia da conduta humana. 0 Evangelho aponta caminhos para
o ser humano se compreender. A Boa Nova, a mensagem, contém uma proposta para
que o individuo se veja, pra que ele se comporte no mundo. E muito mais do que
uma mensagem para que o ser humano seja caridoso, fraterno. Traz no seu bojo uma
mensagem para que o ser humano consiga se entender, se relacionar consigo mesmo.
E a psicologia da pessoa que olha para dentro de si mesmo.
Se a psicologia do Evangelho remete a esse auto-conhecimento, como o senhor vê as diferentes interpretações dos textos bíblicos por diferentes correntes?
Adenáuer
— Acho uma riqueza, acho oportuno. 0
ser humano é diverso, é múltiplo, não é igual ao outro e nem deve ser. Nós
fomos criados por Deus e nos desenvolvemos ao longo dos séculos.
Mas não
há certo sectarismo por parte
de algumas correntes nessas interpretações, que cobram comportamentos das
pessoas?
Adenáuer
— Ha, sim, sectarismo em algumas
religiões, mas isso acaba, não se sustenta ao longo da humanidade. 0 que e
rico, e é preciso ser mantido, são as diferentes percepções do mundo através
das correntes religiosas. São pessoas
diferentes que vêem o mundo de forma diferente. 0 equivoco é que uma
corrente queira que a outra tenha a mesma percepção, a mesma interpretação.
0 aceitável é que o cristão ortodoxo, o evangélico, o espírita, vivam com
respeito diante das diferenças. Isso deve ser respeitado. 0 equivoco é um
combater o outro. Um dia, essas diferenças podem encontrar o lado comum.
E
como o senhor vê a apropriação da fé como instrumento de um projeto político?
Adenáuer
— Vejo de dois modos. 0 primeiro com
preocupação, mas não o suficiente para superar o segundo. Com preocupação
porque nem sempre o uso da religião atende a interesses honestos. Alguns se
apropriam da fé, exploram as fragilidades e inocência das pessoas, para
manipular as massas e isso é ruim e perigoso. Se olharmos para o passado, vamos ver que sempre que o individuo
manipulou as massas através da fé levou essas pessoas para o abismo. Mas, na
medida em que o ser humano crescer, evoluir espiritualmente, vejo que essa relação
possa ser usada para levar a mensagem ética da religião a um ambiente desfalcado
da honestidade. Se os bons, os de boa índole, não tomarem conta, o mal se
estabelece. Para isso os bons, éticos, é que precisam criar os mecanismos para
a relação adequada entre religião e poder.