A VIDA CONTINUA


JOÃO VACCARI NETO, desencarnado aos 24 anos em São José dos Campos (SP), vitimado por acidente de moto.


"Quando me dirigi ao treinamento em São José dos Campos, pode parecer ridículo o que exponho, mas ansiava preparar-me para a vitória nas corridas em perspectiva, mais para destacar minha máquina do que pelo prazer de ganhar essa ou aquela distinção. 

Lembro-me de que nos achávamos aproveitando as horas de um sábado tranqüilo, quando os companheiros deram por finda a nossa rodada, entretanto pedi para repetir o percurso a sós, pois desejava conversar com a moto e fazê-la ver as minudências da pista que nos conduziria à vitória, qual se a máquina tivesse alma... 

Comecei o exercício de novo, sem qualquer sinal de cansaço, no entanto, em certo trecho da pista, um pequeno entrave nos obrigou ao grande salto do qual me projetado no chão. Tentei reerguer-me porém não consegui... 

Creio que algum vaso importante se me rompera no cérebro, porque notei que a minha cabeça pendia desgovernada em meus impulsos de retorno à verticalidade natural. Sem que me conscientizasse da significação daqueles instantes aceitei o torpor que me invadiu... 

Nada mais vi, nem senti, até que despertei num aposento calmo e confortável. Uma senhora velava junto de mim. Não pude retornar de improviso. Tive a impressão de que me apossava do corpo parceladamente. E isso demorou algum tempo. 

Quando reconheci que a voz se me fizera na garganta, perguntei como era justo, sobre a posição em que me achava. O corpo estava combalido num abatimento que eu não consegui explicar para mim próprio. Foi então que a senhora de semblante amigo me esclareceu que era ela, a vovó Júlia, que me trouxera para outro tipo de existência. 

Chorei revoltado, porque me reconhecia numa situação que não pedira, entretanto, aquela criatura de coração magnânimo, que me abraçava, me clareou a cabeça com tamanha ternura que não tive outra alternativa senão concordar... 

Depois de alguns dias pude vê-la em nossa casa, abraçar meu pai, acariciar a irmãzinha, a nossa Ivete, e visitar a querida Liliane... 

Em toda parte e em tudo via o pranto sem razão de ser, porque me achava reconfortado com as lições e explicações recebidas. Não pude, porém, resistir ao sofrimento que alcançara todos os meus e voltei ao estado anterior de desesperação."

Psicografia: FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER

Livro: AMOR E SAUDADE, de 1985, editado pela IDEAL


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