NÃO EXISTE DESOBSESSÃO SEM BASE DE RENOVAÇÃO
MORAL
Jorge Hessen/DF
O Espiritismo explica que na
loucura a causa do mal é interior e é preciso procurar restabelecer o organismo
ao estado normal. Na obsessão, a causa do mal é exterior e é preciso
desembaraçar o doente de um inimigo invisível opondo-lhe, não remédios, mas uma
força moral superior à sua. “A experiência prova que, em semelhante caso, os
exorcismos não produziram jamais nenhum resultado satisfatório, e que antes
agravaram do que melhoraram a situação. Só o Espiritismo, indicando a
verdadeira causa do mal, pode dar os meios de combatê-lo”.([1])
É preciso, de certa maneira, educar moralmente o Espírito obsessor; por
conselhos inteligentes, pode-se fazê-lo melhor e determinar-lhe declinar
espontaneamente ao tormento da vítima, e então esta se liberta.
Todavia, não se pode esquecer que os obsessores são hábeis e inteligentes, perfeitos estrategistas que planejam cada passo e acompanham as presas por algum tempo, observando suas tendências, seus relacionamentos, seus ideais. Identificam seus pontos vulneráveis (quase sempre ligados ao descaminhamento sexual) e os exploram pertinazes.
Para a escola
psiquiátrica obsessão é um pensamento, ou impulso, persistente ou recorrente,
indesejado e aflitivo, e que vem à mente involuntariamente, a despeito de
tentativa de ignorá-lo ou de suprimi-lo. Psiquiatras
que não admitem nada fora da matéria não podem entender uma causa oculta; mas
quando a academia científica tiver saído da rotina materialista, ela
reconhecerá na ação do mundo invisível que nos cerca e no meio do qual vivemos,
uma força que reage sobre as coisas físicas, tanto quanto sobre as coisas
morais. Esse será um novo caminho aberto ao progresso e a chave de uma multidão
de fenômenos mal compreendidos do psiquismo humano.
Sob o enfoque espírita,
obsessão é a ação persistente que um mau Espírito exerce sobre um indivíduo.
Apresenta caracteres muito diferentes, que vai de uma simples influência moral
sem sinais exteriores sensíveis até a perturbação completa do organismo e das
faculdades mentais. Quanto à subjugação
obsessiva([2])
representa um constrangimento físico sempre exercido por Espíritos bastante
vingativos e que pode ir até à mortificação do livre arbítrio. Ela se limita,
muitas vezes, a simples impressões incomodativas, mas resulta, muitas vezes,
movimento psicomotores desordenado, atitudes incoerentes, crises, palavras
inadequadas ou injuriosas, as quais aquele que dela é alvo tem consciência por
vezes de todo o ridículo, mas da qual não pode se defender.
“Esse estado difere
essencialmente da loucura patológica, com a qual se confunde erradamente,
porque não há nenhuma lesão orgânica; as causas sendo diferente, os meios
curativos devem ser outros. Aplicando-lhe o procedimento ordinário das duchas e
dos tratamentos corporais, chega-se, muitas vezes, a determinar uma verdadeira
loucura, aí onde não havia senão uma causa moral”.([3])
Esse desarranjo psicoespiritual deverá ser eliminado do Orbe, no
instante em que o lídimo exemplo do amor for experimentado e disseminado em
todas as direções, consoante Jesus consubstanciou e vivenciou até a agrura da
morte, e prosseguindo desde dos tempos apostólicos até os dias atuais.
O Espiritismo,
desvendando a intervenção dos Espíritos endurecidos no mal em nossas vidas,
lança luzes sobre questões ainda desconsideradas pelas ciências materialistas
como de causa psicopatológica. E, óbvio, não descartando a possibilidade da
anomalia psicossomática a Doutrina Espírita faz conhecer outras fontes das
misérias humanas, mantidas pela fragilidade moral dos seres.
Reconhecemos que o uso
dos fármacos antidepressivos estabelece a harmonia química cerebral, melhorando
o humor do paciente, no entanto, agem simplesmente no efeito, uma vez que os
medicamentos não curam a obsessão em suas intrínsecas causas; apenas
restabelecem o trânsito das mensagens neuroniais, corrigindo o funcionamento
neuroquímico do SNC (sistema nervoso central). Sócrates já afirmava "se os médicos são malsucedidos, tratando da
maior parte das moléstias, é que tratam do corpo, sem tratarem da alma. Ora,
não se achando o todo em bom estado, impossível é que uma parte dele passe bem".([4])
Se diante dos nossos
fracassos momentâneos costumamos olvidar, sistematicamente a paciência e
equilíbrio, a oração e a vigília, então
é urgente estabelecer o momento para introspecção, nos arcabouços da mente, a
fim de que venhamos fazer em nós mesmos as correções prementes. Nessas
situações cotidianas, costumamos entronizar a idéia de obsessão, possessão,
subjugação supondo-nos “vítimas” ([5]) de entidades perseguidoras. A questão, no
entanto, não se restringe só a influenciação espiritual dos inimigos que se nos
embute na freqüência psíquica, mas, sobretudo, diz respeito a nós próprios.
A obsessão de vários graus se constitui de tratamento de longo curso, por muito delicado e complexo e o resultado ditoso depende da renovação espiritual do paciente, na razão em que desperte para a seriedade da conjuntura aflitiva em que se encontra. Simultaneamente, a solidariedade fraternal, envolvendo ambos enfermos em orações e compaixão, esclarecimentos e estímulos para o futuro saudável, conseguem romper o círculo vigoroso de energias destrutivas, abrindo espaço para a ação benéfica, o intercâmbio de esperança e de libertação.
Muitas vezes procurado
pelos obsedados o Cristo penetrava psiquicamente nas causas da sua inquietude,
e, usando de autoridade moral, libertava tanto os obsessores quanto os
obsidiados, permitindo-lhes o despertar para a vida animada rumo a recuperação
e à pacificação da própria consciência. Porém, é muito importante lembrar que
Jesus não libertou os obsidiados sem lhes impôr a intransferível necessidade de
renovação íntima, nem expulsou os perseguidores inconscientes sem fornecer-lhes
o endereço de Deus.
Em qualquer processo de ordem obsessiva a parte mais importante do tratamento está reservada ao paciente. Sua fixação em permanecer no desequilíbrio constitui entraves de difícil remoção na terapia do refazimento. A terapia espírita é a do convite ao enfermo para a responsabilidade, convocando-o a uma auto-análise honesta, de modo a que ele possa eliminar em definitivo suas incursões nas voragens dos desvios morais.
Esforcemo-nos, pois, pela
vigília constante e orando para que nos libertemos da vergasta das obsessões,
no firme propósito de modificação de hábitos e atitudes negativos, ingressando
no seio dos valores enobrecedores da vida pela efetiva mudança de
comportamento.
[1] Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns, Rio de
Janeiro: Editora FEB, 2001 e Revista Espírita, fevereiro, março e junho
de 1864. A jovem obsedada de Marmande.,
[2] A
subjugação obsessiva, o mais ordinariamente, é individual; mas, quando uma
falange de Espíritos maus se abate sobre uma população, ela pode ter um caráter
epidêmico. Foi um fenômeno desse gênero que ocorreu ao tempo do Cristo; só uma
poderosa superioridade moral podia domar esses seres malfazejos, designados
então sob o nome de demônios, e devolver a calma às suas vítimas. [Uma
epidemia semelhante castigou por vários anos uma aldeia da Haute-Savoie, conforme
relata a Revista Espírita, abril e dezembro de 1862; janeiro, fevereiro, abril
e maio de 1863: Os possessos de Morzines]
[3] Kardec, Alan. O Que é o Espiritismo, Cap. II,
Escolho dos Médiuns, Rio de Janeiro: Editora FEB, 2003
[4] Kardec, Allan.
O Evangelho Segundo o Espiritismo, Resumo da doutrina de Sócrates e de Platão,
item XIX, Rio de Janeiro: Editora FEB, 2001
[5] Os chamados obsessores, na maioria das vezes, são de fato nossas vítimas
reais do passado.