COMEMORAÇÕES
NAS INSTITUIÇÕES ESPÍRITAS
Gebaldo José de Sousa
Aqueles que compartilham responsabilidades de conduzir Instituições Espíritas
(Centros, Asilos, Escolas, Obras Sociais, etc.) devem vigiar para que as
comemorações em datas especiais, ou em quaisquer outras ocasiões, não
descambem para festas mundanas.
A Casa Espírita é recinto sagrado, onde mentores amigos dedicam tempo e
recursos para mantê-la em condições de aliviar dores, consolar e socorrer
aflitos dos dois planos da vida.
Atitudes levianas podem destruir ou prejudicar aquilo que é esforço de
muitos e obra de gerações.
A promiscuidade e a inversão de valores que avassaladoramente tomou
conta das artes (pintura, literatura, teatro, cinema, música), dos meios de
comunicação, máxime da televisão —que
veiculam verdadeiros lixos morais, em muitos casos — polui mentes
desavisadas, vulgarizando-se a idéia de que aceitá-la, achando-a natural, é
ser moderno.
Não se trata aqui de moralismo, mas de fidelidade a Jesus: de pureza
doutrinária, de conduta, dos costumes, de ideais, por oposição ao que nos
oferece o mundo.
Não
podemos conspurcar Instituições onde se busca viver as lições sublimes da
Caridade e do Amor, sucessoras da amorável “Casa do Caminho”, fundada pelos
discípulos de Jesus, há dois mil anos.
Ali,
a arte deve ser elevada, para que seja, ela própria, mensagem evangelizadora; a
conduta deve ser digna, para que também o exemplo evangelize. Ali, a alegria e
a palavra devem ser sadias, ensejando vibrações de fraternidade e equilíbrio,
de respeito ao outro, sem concessões aos costumes malsãos do mundo lá fora,
responsáveis por tantos males. Em tudo devemos guardar o senso das proporções.
Surpreende-nos
que ocorram fatos dessa natureza nas organizações espíritas - detentoras
desse tesouro inestimável - e que haja necessidade de alertas deste teor.
Admite-se
que um ou outro confrade, ainda não
amadurecido na Doutrina Espírita, faça propostas de promover danças, com músicas
profanas, uso de bebidas, de rifas, jogos e bingos. Mas que sejam aprovadas e
adotadas rotineiramente por
‘responsáveis’ pela condução de organizações espíritas é inconcebível,
e é o que nos espanta!
Pouco
importa que as promoções objetivem angariar fundos destinados a ações
beneficentes; que ocorram nas Casas Espíritas ou em outros locais, onde se age
— nessas circunstâncias — em nome da Doutrina Espírita. A postura deve
ser, ela mesma, exemplar, e portanto doutrinária, pois os fins jamais
justificam os meios. Melhor realizar menos, mas com fidelidade ao Evangelho.
A
mensagem do Consolador veio ao mundo para renová-lo, jamais para ser, mais uma
vez, deturpada por ele. Não há meio termo: ou adotamos conduta cristã, ética,
ou permaneceremos iludidos nos velhos maus hábitos e ser-nos-á inútil o rótulo
de espíritas.
Nesses
casos, ou esses “espíritas” não estudam os livros doutrinários (Conduta
Espírita1, Educandário de Luz2, por exemplo), ou
entendem que os Espíritos não devem ser levados a sério...
Ora,
Jesus “(...) retribuirá a cada um conforme as suas obras”.
(Mateus, 16-27.)
Tudo
tem um preço. E as concessões dessa natureza implicarão na
responsabilidade daqueles que as promovem, ou que compactuam com posturas e práticas
inadequadas às Casas Espíritas, à mensagem evangélica.
Adverte
Paulo: “Todas as cousas me são lícitas, mas nem todas convêm”, (I Cor.
6-12). Se vamos usufruir daquilo que não nos convêm, que o façamos alhures,
para não incidirmos em várias falhas, nem induzir criaturas imaturas ao erro,
e à visão distorcida do Espiritismo.
Se
não conseguimos nos renovar, não destruamos nem desvirtuemos a finalidade das
Casas Espíritas, que visam a
reviver, na Terra enferma, a puríssima Doutrina de Jesus.
Há
pouco, chegou-nos às mãos folheto de um Centro Espírita de cidade do
interior, dirigido a um nosso amigo, pedindo uma prenda, para a festa do
‘santo’ patrono da Casa... E registrava ainda que conta com o apoio da
Prefeitura local.
Copiaram,
na íntegra, a prática da igreja de Roma.
É
muita pureza, muita inocência, convenhamos. Bem sabemos que nossos irmãos são
muito sinceros e simples. Mas é também muita falta de estudo, de trocar experiências
com outros Centros Espíritas de outras localidades.
Há
que se mudar a linguagem e os hábitos! A Doutrina de Jesus é dinâmica, viva,
transformadora.
Por
essas e por outras, pode-se imaginar o que não ocorre por aí, por esse mundo
afora, em nome da Doutrina Espírita!
Há
em REFORMADOR dois artigos que tratam do assunto. Ambos merecem lidos e
divulgados.
Do
exemplar de janeiro de 19923, o primeiro deles, destacamos parte de
mensagem de Bezerra de Menezes:
“(...)
para o Centro Espírita se deslocam os Espíritos com acentuado desequilíbrio e
outros com o propósito de aprender. Outros são levados pelos protetores
desencarnados para serem doutrinados e aí permanecem para prosseguir no
tratamento de reequilíbrio espiritual ou no aprendizado.
Detendo-se
aí, observam-nos o procedimento, a conversação, os pensamentos...
Dessa
forma, o Centro Espírita deve-se transformar num verdadeiro santuário, de
respeito e oração.
Não
se pode, pois, permitir em seu seio festas, músicas de fundo não edificantes,
peças teatrais, aplausos, conversação tumultuada e não construtiva, discussões
violentas, homenagens humanas, ‘comes e bebes’, reuniões sem disciplina,
rifas, leilões, comércio, brincadeiras, competições, ataques a outras religiões,
enfim tudo aquilo que não se concebe num hospital, junto a um leito de dor ou
num santuário de oração.”
No
exemplar de outubro de 19924, o autor transcreve excertos de artigo
elaborado por Bezerra de Menezes, publicado no Reformador de agosto de 1896 - há
exatos cem anos - e transcrito na obra “Vida e Obra de Bezerra de Menezes”,
editada pela FEB, páginas 31 e 32, e republicado em Reformador de
out/54, p. 246.
Naquele
tempo, a Doutrina estava nascente, era uma fase de transição, e justificava-se
a necessidade da advertência; mas hoje, ser ainda necessário que amiúde se
trate do assunto, é o que nos surpreende e o que indica o quanto o Espiritismo
é pouco conhecido mesmo entre “espíritas”!
É
do segundo artigo a seguinte passagem, ditada pelo Espírito Ignácio
Bittencourt, à médium Yvonne A. Pereira, com o fim de orientar Mocidades Espíritas,
e também publicada em REFORMADOR dos meses de agosto e outubro de 1959:
“(...)
não creio seja lícito (...) consentires que quem quer seja leve para o Centro que diriges a profanação das festas
mundanas, dele fazendo não mais um receptáculo das inspirações divinas, como
devem ser os Centros Espíritas bem orientados, mas uma platéia heterogênea
onde a mediocridade da arte apresentada fará atrair os pândegos e paspalhos do
Invisível, em vez dos abnegados obreiros de Jesus (...)”.
Na conferência A Educação Espírita
e a Visão Integral do Homem, proferida por J. Raul Teixeira, no dia
03 de outubro de 1995, em Brasília, no Primeiro Congresso Espírita
Mundial, promovido pelo Conselho Espírita Internacional e realizado pela Federeção
Espírita Brasileira, o expositor foi muito feliz ao dissecar o tema. (A FEB
editou a fita de vídeo, que precisa ser bem divulgada entre os Espíritas).
Referindo-se ao modismo humano de copiar o que fazem os ídolos, sem
pensar nas conseqüências, afirma:
“(...) muita gente vai para o
Centro Espírita de shortinho, de sunga de praia, de tanga, porque confundiu-se
o espaço religioso do Centro Espírita com o clube, com a piscina, com a praia.
As pessoas perderam o senso do ridículo! E aí, onde é que nós vamos parar?
(...)
Por que é que nós temos que trazer o mundo social para dentro do Centro
Espírita e não os ensinamentos do Centro Espírita para o mundo lá fora?
Precisamos inverter as coisas! É do Centro Espírita para o mundo, e não
trazer todo o mundanismo para o Centro Espírita! (...)
Quem está nas direções, por favor, assuma que está nas direções: não
queira agradar todo mundo, não queira fazer gentileza com chapéu alheio. A
Doutrina não nos pertence. A Doutrina é dos Espíritos. Nós vamos dar conta
disso.
(...) o administrador terá que dar conta de sua administração.
Pensemos nisto.
E se nós não suportamos o ter que dizer sim, o ter que dizer não, na
hora certa, não assumamos direção alguma, por vaidade pessoal.
É importantíssimo que quem tome conta, aprenda a dar conta.
O mundo social está invadindo o
Centro Espírita: as festas, as comemorações, as práticas, as vestimentas, o
palavreado...
Quando deveria ser diferente: deveria ser Jesus contagiando a multidão,
do Centro Espírita para lá!
O
espírita, como cristão autêntico, deveria cumprir o que propôs Jesus:
transformar-se no sal da Terra. E o sal onde quer que ele está ele destaca o
sabor da vida, o sabor das coisas; e o sal, onde quer que ele esteja, ele
preserva as coisas da putrefação. É isto que seria o nosso trabalho, enquanto
educandos integrais nesta vida em que nos achamos.”
Ao final, afirmou, ao responder à indagação:
“
— Devemos ser complacentes com a vestimenta jovem no Centro Espírita?
Pois dizem que, se não o fizermos, o jovem se afasta do Centro.”
“ — Mas se o fizermos, ele se afasta do mesmo jeito, porque é igual
ao clube. Então ele vai ao clube, porque ele não tem que ir lá no Centro
ouvir uma pessoa chata falando.
É importante que a vestimenta jovem não seja uma vestimenta ridícula.
Quem é que disse que o jovem tem que andar nu? Quem é que disse que o jovem
tem que andar rasgado ou roto?
O jovem que se respeita não anda assim. E o jovem que não se respeita,
ele tem que ir para o Centro Espírita aprender a respeitar-se. Então o Centro
Espírita vai abrir as portas para ele, mas não para assimilar o seu jeito, mas
para dar-lhe um jeito novo de viver.”
Não há o que acrescentar.
Meditemos,
pois, se estamos sendo fiéis à nossa amada Doutrina, à qual somos todos
devedores, e cuja divulgação está em nossas mãos, para que o façamos
corretamente, sem macular aquilo que generosamente nos foi confiado, por acréscimo
de misericórdia!
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
1.
André Luiz/Francisco C. Xavier. Conduta
Espírita. 6 ed. Rio de Janeiro: FEB, 1978, 155p.
2.
Espíritos Diversos. Educandário de Luz.
1 ed. São Paulo: IDEAL, 1984. 90p.
3.
HALFELD, Kleber, O Dia em que a Dúvida Surgiu. REFORMADOR, n.º 1954, janeiro de
1992.
4.
SOARES, Affonso, CENTRO ESPÍRITA: Respeito e Seriedade. REFORMADOR, n.º 1963,
outubro de 1992.
Publicado
no “Reformador” 2.012, de nov/96. - As partes em negrito foram suprimidas
pela FEB.
Idem,
na Revista “Informação” 242, de jan/97, na íntegra.
Idem,
no Jornal Auta de Souza, edição de abr/97.