Henry
Slade
Henry
Slade, célebre médium das escritas nas lousas, foi exibido
publicamente na América durante 15 anos. Em 1876 ele foi à
Inglaterra, passando antes pela Rússia, a pedido da Sra.
Blavatsky e do Coronel Olcowt, escolhido que fora como médium
notável, para fazer experiências sobre a veracidade dos fenômenos
espíritas. Slade foi submetido a testes durante várias
semanas por uma comissão de cépticos que em seu relatório
terminou por concluir: "Eram escritas mensagens nas faces
internas de duas lousas, por vezes amarradas e seladas juntas,
quando postas sobre uma mesa, à vista de todos; acima das
cabeças de membros da comissão; presas à parte inferior do
tampo da mesa; ou, ainda, nas mãos de um membro da comissão,
sem que o médium tocasse.
Logo após a sua chegada a Londres, Slade começou a fazer
sessões com imediato sucesso. Não só a escrita era obtida
de modo evidente, sob fiscalização e com lousas dos próprios
assistentes, mas a levitação de objetos e a materialização
de mãos foi observada sob intensa luz do dia. O redator do
The Spiritual Magazine escreveu: "Não hesitamos em dizer
que o Mr. Slade é o mais notável médium dos tempos
modernos". Tais sessões ocorriam durante o dia, a
qualquer hora, em seus aposentos de pensão. Cobrava 2O
shillings por sessão e preferia que apenas uma pessoa a
assistisse. Assim que o visitante sentava começavam os
incidentes e terminava em cerca de 15 minutos. Com Slade não
havia preocupação com as condições ambientais e a observação
dos fenômenos satisfazia inteiramente aos assistentes. Com
ele tudo era rápido e preciso, pois os operadores invisíveis
sabiam exatamente o que iam fazer em cada ocasião e o faziam
com presteza e precisão.
A primeira sessão de Slade na Inglaterra foi realizada a 15
de julho de 1876. Em plena luz do dia o médium e os dois
assistentes ocuparam os 3 lados de uma mesa comum de cerca de
3 pés de lado. Slade pôs um pedacinho de lápis, mais ou
menos do tamanho de um grão de trigo, sobre uma ardósia e
segurou esta por um canto com uma das mãos, encostando-a no
tampo por baixo da mesa. Ouvia-se a escrita na lousa e,
examinada, verificou-se que uma curta mensagem fora escrita.
Enquanto isso acontecia, as 4 mãos dos assistentes e a mão
livre de Slade eram agarradas no centro da mesa. A cadeira
vazia no quarto lado da mesa uma vez pulou no ar, batendo o
assento na borda inferior da mesma. Duas vezes uma mão com a
aparência de vida passou em frente a Mr. Blackburn (eminente
espiritista), enquanto ambas as mãos de Slade eram
observadas. O médium segurou um acordeon de baixo da mesa e,
enquanto se via claramente a outra mão sobre a mesa, foi
tocada a "Home sweet home". Finalmente os presentes
levantaram as mãos cerca de 3O centímetros acima da mesa e
esta ergueu-se até, tocar as suas mãos. Em uma outra sessão
no mesmo dia uma cadeira ergueu-se cerca de um metro e vinte,
quando ninguém a tocava e, quando Slade tinha uma mão no
espaldar da cadeira de Blackburn, a mesma elevou-se cerca de
meio metro acima do solo. Durante 6 semanas Slade deixou
Londres curiosa e agitada, até que um fato lamentável viria
a interromper seus trabalhos.
No começo de setembro de 1876 o professor Ray Lankester, com
o Dr. Donkin tiveram duas sessões com Slade e, na segunda,
tomando uma lousa, encontraram-na escrita, quando se pensava
que nada tivesse sido produzido. Ele era absolutamente
inexperiente em pesquisas psíquicas, do contrário saberia
que é impossível dizer o momento exato em que se dá a
escrita nessas sessões. Ocasionalmente uma folha inteira
parecia precipitada num instante, enquanto de outras vezes o
autor ouvia claramente o ruido do lápis, linha por linha.
Para Ray Lankester, entretanto, pareceu um caso típico de
fraude e ele escreveu uma carta a The Times denunciando Slade
e o perseguiu por tomar dinheiro de modo fraudulento. Foram
publicadas cartas em resposta a
Lankester pelo Dr. Alfred Wallace, pelo prof. Barrett e
outros. O Dr. Wallace chamou atenção para o fato de que o
relato do Dr. Lankester daquilo que acontecera era
extremamente diferente do que lhe ocorreu durante a sua visita
ao médium, bem como o registro das experiências de Serjeant
Cox, do Dr. Carter Blake e muitos outros, de modo que o podia
considerar como um notável exemplo da teoria do Dr. Carpenter,
sobre as idéias preconcebidas. Diz ele:"O professor
Lankester foi com a firme convicção de que tudo que ia
assistir era impostura e, assim, pensa que viu
imposturas".
Apesar do testemunho de muitos admiradores e também de
cientistas já conhecedores da problemática mediúnica, o
julgamento de Slade se deu na Corte de Polícia de Bow Street.
A acusação esteve a cargo de Mr. George Lewis e a defesa foi
feita por Mr. Munton. As provas sobre a autenticidade da
mediunidade de Slade foram dadas peloDr. Alfred Wallace, por
Serjeant Cox, pelo Dr. George Wild e outros, mas só 4
testemunhas foram permitidas. O magistrado classificou a prova
testemunhal como "esmagadora" dada a evidência dos
fenômenos, mas no julgamento excluiu tudo, exceto a acusação
de Lankester e de seu amigo Dr. Donkin, dizendo que era
obrigado a basear a sua decisão em "interferências
deduzidas dos conhecidos fatos naturais". Uma declaração
feita pelo conhecido mágico Maskelyne de que a mesa usada por
Sladeera preparada para truques, foi desmascarada pelo
testemunho do carpinteiro que a tinha feito. Apesar disso,
Slade foi condenado nos termos da lei contra a vagabundagem a
três meses de pris±o com trabalhos forçados. Os espíritas
mostraram muita energia na defesa de Slade. Protestos,
memoriais a ministros, Fundos de Defesa, solicitação à Câmara
dos Comuns e até cópias de protesto foram enviadas à
rainha. Houve apelo e ele foi solto sob fiança. Slade, cuja
saúde ficou seriamente afetada com a prisão, deixou a
Inglaterra dois dias depois.
Passado o episódio, após sessões de êxito em Haya,Slade
foi a Berlim onde despertou o mais vivo interesse. Dizia-se
que ele não sabia alemão, mas apareceram mensagens nessa língua
sobre as lousas e escritas em caracteres do século XV. O
Berliner Fremdenblatt publicou o seguinte: "Desde a
chegada de Mr. Slade ao Hotel Kronprinz, uma grande parte do
mundo culto de Berlim vem sofrendo de uma epidemia que podemos
chamar de febre espírita". Slade começou por converter
o proprietário do hotel, usando suas próprias lousas e
mesas. O chefe de Polícia e muitas pessoas eminentes de
Berlim testemunharam a veracidade dos fenômenos espíritas,
persuadidas da ausência de fraudes.
Seguiu-se uma visita à Dinamarca e em dezembro começaram as
históricas sessões com o professor Zollner, em Leipzig. Um
relato completo encontra-se na obra de Zollner, "Física
Transcendental". Nessas experiências estiveram outros
homens de ciência, inclusive William Edward Weber, professor
de Física; o prof. Scheibner, ilustre matemático; Gustave
Theodore Fechner, professor de Física e eminente filósofo
naturalista, todos perfeitamente convencidos da realidade dos
fatos observados, inclusive de que não havia impostura ou
prestidigitação. Entre os fenômenos contavam-se os nós
dados em uma corda sem fim, o rompimento das cortinas do leito
do prof. Zollner, o desaparecimento e imediato aparecimento de
uma pequena mesa, descendo do teto em plena luz, notando-se a
aparente imobilidade de Slade durante essas ocorrências.
Na Rússia, depois de uma série de êxitos nas sessões de São
Petersburgo, Slade retornou a Londres por alguns dias e então
dirigiu-se à Austrália. Um interessante relato do seu
trabalho nesse último país foi o livro de James Curtis
"The Rustlings in the Golden City". Então voltou à
América. Em 1885 compareceu perante a Comissão Seybert, em
Filadélfia, e em 1887 visitou novamente a Inglaterra sob o
nome de Dr. Wilson. Na maioria de suas sessões Slade
demonstrou possuir clarividência e as mãos materializadas
eram coisa familiar. Na Austrália, onde as condições psíquicas
eram boas, obteve materializações mais amplas.
Slade foi um médium perseguido pelos detratores do
Espiritismo. Com tantos testemunhos memoráveis, com o excesso
de provas materiais de sua honestidade, mesmo com a
ostensividade exagerada dos componentes invisíveis,
demonstrando inequívocas provas de suas existências e atuações,
muitos por pura inveja, despeito ou mesmo maldade, o atacavam
em sua honra. Mas, preconceito e ignorância são armas usuais
no cotidiano dos fanáticos, dos acomodados e dos presunçosos.
Armas frágeis, pois a ciência com o seu avanço contínuo as
derreterão no ardente fogo da comprovação dos fatos espíritas.
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Henry Slade
Hernâni Guimarães Andrade
«Revista de Espiritismo» nr. 41, Outubro/Dezembro 1998
«A mente humana é como o pára-quedas;
trabalha melhor aberta».
Charlie Chan (in «A Enciclopédia da Ignorância», p.31)
É possível que actualmente algumas pessoas mais jovens
ignorem o que seja uma ardósia. Deve haver muita gente que
jamais viu este objecto.
Trata-se de uma pequena lousa feita de uma lâmina de pedra
negra (xisto argiloso, metamórfico, de granulação finíssima),
cujo nome é mesmo ardósia. A lâmina de pedra é enquadrada
por um caixilho de madeira. Antigamente as crianças aprendiam
a escrever e fazer contas nas ardósias (este era o nome comum
dessas lousas).
Para se escrever na ardósia, usava-se um lápis feito do
mesmo material, porém um pouco mais macio. A escrita aparecia
com caracteres brancos e podia ser facilmente apagada. As ardósias
substituíam, em grande parte, os cadernos de papel, usados
actualmente nas escolas.
O médium e médico americano, doutor Henry Slade, de que nos
iremos ocupar, caracterizava-se por usar habitualmente a ardósia
para obter as mensagens dos espíritos. A escrita era directa
e conseguida de uma forma original. Pegava-se em duas ardósias
colocadas juntas, face a face. Os caixilhos de madeira
propiciavam um espaço livre entre as faces das lâminas de
pedra, dentro da qual se introduzia um pequeno pedaço de lápis
de ardósia. As duas lousas assim juntas eram levadas, seguras
por uma das mãos do médium, sob o tampo de uma mesa. Logo a
seguir, podia ouvir-se o ruído do pedaço do lápis sendo
atritado sobre as lousas. Cessado o ruído, as lousas eram
retiradas. Ao abrir-se as duas ardósias, geralmente
encontrava-se mensagens escritas directamente pelos espíritos.
Henry Slade não era o único médium a usar este processo
para obter a escrita directa; porém, ele tornou-se conhecido
pela frequência com que lançava mão das lousas de ardósia
nas suas demonstrações de mediunismo. Em muitas destas sessões,
Henry Slade foi testado através da escrita em ardósia.
Durante uma dessas vezes, ele sofreu graves consequências
relativas à sua reputação como médium.
Sessões em Londres
Em 1876, Slade estava no auge da fama. De passagem por
Inglaterra, onde chegou dia 13 de Julho daquele ano, deu várias
sessões em Londres. É preciso esclarecer que as suas
faculdades não se limitavam apenas à obtenção da escrita
directa em ardósias, conforme explicámos antes.
Nesta ocasião, as lousas, além de sobrepostas, eram
previamente seladas e lacradas, a fim de atender às
crescentes exigências dos observadores cépticos. E a escrita
surgia, assim mesmo. As mensagens nas lousas constituíam
pequena parte do seu repertório.
Slade, além disso, produzia materializações parciais,
movimentos de mesas, ouviam-se fortes pancadas nas mesmas e em
outros lugares dos cómodos (fenómeno de troibismo). O próprio
médium era levitado à vista de todos. Mãos invisíveis
tocavam instrumentos musicais.
Finalmente, provocava fenómenos de "apport", em que
ocorria aparente transposição de objectos materiais através
de obstáculos de matéria sólida.
Em 30 de Agosto de 1876, um repórter do «The World» deu o
seu depoimento, num longo artigo. Ele descrevia uma sessão
privada e a plena luz, que tivera com Slade, declarando-se
embaraçado e perplexo por não saber como explicar os fenómenos
presenciados e por ele descritos.
Não era apenas o repórter do «The World» que se confessava
aturdido pelos factos testemunhados na presença de Slade.
Cientistas de renome como «lord» Rayleigh, Alfred Russel
Wallace e Frank Podmore também se renderam à evidência dos
fenómenos desencadeados graças às faculdades do famoso médium.
O episódio das lousas
Em Setembro do mesmo ano de 1876, o professor E. Ray Lankester,
membro da British Association for the Advancement of Science,
juntamente com o dr. Donkin, resolveu desmascarar o decantado
agente paranormal.
Naquela ocasião, cobrava-se o ingresso para assistir a uma
sessão mediúnica. Lankester e o seu companheiro, dr. Donkin,
pagaram uma libra cada um — era este o preço do ingresso.
Na primeira sessão limitaram-se a presenciar os factos. O
ponto fraco, pensaram eles, devia estar no fenómeno das
lousas de ardósia. Era ali que poderiam descobrir-se a má-fé,
a trapaça do médium. Voltaram uma segunda vez. A sessão
desenrolava-se na sua forma habitual, mas quando o médium
recebeu nas suas mãos as lousas fechadas e lacradas, o prof.
Lankester subitamente arrebatou-as das mãos de Slade, antes
que ele tivesse iniciado a operação habitual para obter a
escrita directa, colocando-as sobre a mesa.
Estabeleceu-se um tumulto. A sessão foi logo interrompida. As
ardósias foram abertas e... lá encontrou-se uma mensagem já
escrita!
Para Lankester e Donkin alestava a prova da fraude! Aquele
facto foi o quanto bastou para pôr em dúvida a validade dos
diversos outros fenómenos testemunhados por todos os demais
observadores.
Lankester move uma acção contra Slade
A questão das ardósias não ficou nisso. Lankester sentiu-se
lesado na sua boa-fé e no seu bolso; imediatamente moveu uma
acção judicial contra Slade: além do processo, publicou um
relatório no «The Times», em 16 de Setembro daquele ano. A
acção judicial proposta alegava que o médium estava a obter
dinheiro à custa de simulações. O interessante é que
Lankester foi assistir às sessões por duas vezes. Se houvera
desconfiado na primeira, por que tornou a gastar mais uma
libra para ser novamente ludibriado?
Formou-se, em torno do caso, um debate. Surgiram pessoas a
favor e contra Slade. O próprio médium defendeu-se alegando
que as lousas foram arrancadas das suas mãos quando a
mensagem já estava a ser escrita. Ele ouvira o ruído e
procurara alertar os assistentes, mas as suas palavras não
foram entendidas devido à confusão estabelecida dali em
diante.
O julgamento de Slade
Em 1 de Outubro de 1876, o caso de Slade foi o julgamento da
"Bow Street Police Court". Os acusadores arrolaram
como testemunhas pessoas que não puderam ser aceites por se
acharem irregulares. Entre estas últimas incluía-se um
membro da Royal Society, dr. V. B. Carpenter.
Por fim, um apenas estava em condições de ser credenciado a
depor: R. M. Hutton. Por incrível que pareça, esta
testemunha até depôs a favor do acusado!
Para a defesa, o juiz só admitiu o depoimento de quatro
testemunhas de entre as inúmeras que se apresentaram. Entre
os escolhidos pelo magistrado, figuravam o prof. Alfred Russel
Wallace, Sergeant E. W. Cox, o dr. George Wyld e mais um
outro. Todos eles, naturalmente, depuseram favoravelmente a
Henry Slade, declarando-se convencidos da legitimidade das
faculdades deste médium. O próprio juiz considerou que os
depoimentos contra a acusação eram esmagadores. Entretanto,
achou de seu dever condenar o acusado pelo "crime de
tentar alterar o curso das conhecidas leis da natureza".
Baseado nos depoimentos de Lankester e de Donkin, condenou
Slade a três meses de prisão com trabalhos forçados! Slade
apelou da sentença e obteve a sua anulação.
Lankester tentou novo processo, "no interesse da ciência",
segundo ele.
Slade deixa a Inglaterra
Antes que Lankester entrasse com a segunda acção contra
Slade, este, desgostoso, abandonou a Inglaterra. A sua saúde
estava seriamente abalada. Seguiu para Praga.
Mais tarde, escreveu, de lá, a Lankestre, oferecendo-se para
ser por ele submetido a provas rigorosas. A proposta de Slade
isentava Lankester de qualquer obrigação de uma retratação
pública, caso verificasse a legitimidade das suas faculdades
paranormais.
O prof. Ray Lankester nunca respondeu à carta de Slade...
Zoellner estuda Slade
Em Dezembro de 1877, o dr. Johan Karl Friedrich Zoellner
(1834-1882), professor de Física e Astronomia da Universidade
de Leipzig, fez uma série de experiências com o médium
Henry Slade.
Além de Zoellner, assistiram a essas experiências vários
cientistas de renome na Alemanha: dr. Wilheim Edward Weber,
prof. de Física; dr. W. Scheibner, prof. de Matemática; dr.
Gustav Friedrich Fechner, filósofo e prof. de Física.
Slade ficou hospedado em casa de um dos amigos do prof.
Zoellner, o barão Von Hoffmann. A maior parte das experiências
foram feitas nessa residência.
Dia 17 de Dezembro de 1877, pela manhã, Zoellner, seus
colegas acima mencionados e mais outras pessoas presenciaram
os primeiros fenómenos provocados por Slade.
O prof. Zoellner e o prof. W. Weber haviam preparado quatro
cordas cujas respectivas duas pontas foram solidamente atadas
uma à outra. Escolhida uma dessas quatro cordas, ela foi
presa pelo nó à beirada de uma mesa, com lacre fundido e
marcado por sinete, no mesmo local. O prof. Zoellner sentou-se
frente à corda presa, tendo o restante da mesma caído sobre
o seu colo. As mãos de Zoellner apoiavam-se espalmadas sobre
a beirada da mesa, tendo os seus polegares colocados lado a
lado do nó lacrado.
Slade sentou-se noutra cadeira próxima ao prof. Zoellner,
apoiando também as mãos sobre a mesa. Num dado instante, à
vista de todos e à plena luz do dia, pois era de manhã,
surgiram quatro nós no corpo da corda! Durante o evento, o médium
parecia alheio ao ambiente, como que distraído, e não tocou
nem uma única vez na corda.
Zoellner propôs duas hipóteses para explicar os nós dados
na corda sem pontas livres. A primeira seria a transposição
da matéria através da própria matéria, graças a uma rápida
desmaterialização das fibras, em determinados pontos da
corda, seguida da sua rematerialização. Seres invisíveis
que fossem capazes de fazer isso, poderiam realizar os nós,
dentro do nosso espaço físico.
A segunda hipótese seria admitir-se a existência de uma
quarta dimensão situada num espaço contíguo ao nosso. Neste
espaço operariam seres, também com propriedades
tetradimensionais. Tais seres seriam capazes de efectuar
movimentos de objectos ao longo das quatro dimensões.
Nesta segunda hipótese, os nós poderiam ser executados por
tais seres, sem necessidade de desmaterializar a corda em
qualquer ponto. Bastar-lhes-ia puxar um trecho da corda para a
quarta dimensão, dar-lhe um certo número de laçadas e
retorná-lo para o nosso espaço físico novamente. Esta hipótese
foi confirmada em 8 de Maio de 1878, quando Zoellner fez a
mesma experiência com correias de couro cujas pontas foram
também atadas e lacradas. Os nós surgiram nas correias; porém,
estas mostraram-se torcidas após a realização dos nós.
Isto significa que não houve transposição de matéria e sim
torção das tiras de couro, devido provavelmente às laçadas
efectuadas numa quarta dimensão, por seres incorpóreos.
Zoellner obteve duas argolas de madeira, prendeu-as a um
grosso fio de «categute» cujas pontas foram atadas e
lacradas. Slade colocou as suas mãos espalmadas sobre o tampo
da mesa, tendo dependurada nos seus pulsos a tira de «categute»
com as duas argolas de madeira. Passados alguns instantes,
sentiu-se um cheiro de substância queimada, e as duas argolas
desapareceram do fio de «categute», indo alojar-se enfiadas
na haste central duma mesinha circular. O tampo e o tripé de
base desta pequena mesa mantinham-se solidamente fixos na
haste central onde as argolas foram enfiadas, não se sabe
como! Esta experiência foi feita de dia, à luz clara, sob as
vistas de todos os assistentes. As argolas estavam perfeitas.
Uma outra pequena mesa desapareceu por seis minutos, à luz do
dia, estando o médium sob absoluto controlo. O móvel
reapareceu em pleno ar, caindo sobre outra mesa. Na ocasião a
mesinha passou de raspão sobre a cabeça de Zoellner,
batendo-lhe com o tampo e ocasionando-lhe uma dor que durou
mais de quatro horas.
Moedas colocadas em caixas fechadas e lacradas saíram do seu
interior, atravessando o tampo duma mesa, para cair sobre uma
lousa colocada sob o móvel, ao mesmo tempo em que era escrita
uma mensagem na ardósia.
Para todas estas experiências, Zoellner teve como explicação
a existência duma quarta dimensão de espaço, bem como a
actuação de seres capazes de se locomoverem e actuarem ao
longo duma transaltura. (Zoellner, J. K. F. — «Provas Científicas
da Sobreviência», São Paulo: Edicel, 1966).
A Seybert Commission
Em fins do século XIX, um espiritualista da Filadélfia, EUA,
de nome Henry Seybert, deixou um legado de 60 mil dólares à
Universidade de Pensilvânia. De acordo com o testamento, este
dinheiro destinava-se à manutenção de uma cátedra na dita
universidade, a ser conhecida como Cátedra de Filosofia Moral
e Intelectual Adam Seybert. O responsável pela cadeira
deveria, ou individualmente ou em conjunto com uma comissão
da própria universidade, fazer uma completa e imparcial
investi-gação de todos os sistemas de moral, religião ou
filosofia que admitem representar a verdade, e particularmente
do moderno espiritualismo. (Fodor, N. «Encyclopaedia
of Psychic Science», New York: University Books, 1974, p.
31).
Em Março de 1884, formou-se uma comissão, obedecendo
à vontade expressa do testador. O testamenteiro era Thomas R.
Hazard, amigo pessoal de Henry Seybert. A referida comissão
tomou o nome de Seybert Commission e estava predestinada a
tornar-se famosa, como iremos ver.
Até 1887 a comissão não havia encontrado nada de verdadeiro
no campo dos fenómenos espiritualistas. Os seus relatórios
preliminares foram inteiramente negativos. Daí em diante, não
foi publicado nenhum estudo conclusivo e nem as investigações
foram reencetadas. As poucas vezes que a comissão procurou
investigar os fenómenos espiritualistas, ela fê-lo de
maneira totalmente contrária à orientação testamentária.
Thomas R. Hazard recebera instruções de Henry Seybert no
sentido de conduzir correctamente as pesquisas. O
testamenteiro deveria designar os médiuns a serem consultados
e rejeitar a assistência de pessoas cuja presença pudesse
perturbar a harmonia e a boa ordem dos círculos
espiritualistas. (Opus cit. P. 342).
Quem tem alguma experiência no trato com os sensitivos
sabe perfeitamente a importância desta condição. O
verdadeiro médium sofre intensamente a acção inibida dos
pensamentos e da disposição hostil de uma assistência mal
intencionada.
Pelo que se deduz das actividades da Seybert Commission,
descritas nos seus relatórios, os seus investigadores
achavam-se inteiramente despreparados para semelhantes
investigações. Ao contrário do que faria um legítimo
pesquisador, partiam de preconceitos rigidamente
estabelecidos. Para eles, todos os fenómenos espiritualistas
eram pura fraude que, mais cedo ou mais tarde, acabaria por
ser descoberta. Ao encetarem uma investigação, esqueciam-se
de observar, registar e medir cuidadosamente os factos e as
circunstâncias que rodeavam os fenómenos. Não procuravam
fazer variar um a um os possíveis factores causais, para
observarem as correspondentes alterações nos eventos.
Entravam em cena, atabalhoadamente, como crianças que brincam
às escondidas: ao sinal de «Pronto», saem a correr e
vasculham aleatoriamente todos os recantos, em busca do
objecto escondido. O objecto visado era sempre o
desmascaramento dos médiuns e a desmistificação dos seus
adeptos. Tinham de encontrá-lo a qualquer custo, ainda que
fosse necessário inventá-lo. Era uma autêntica caça às
bruxas.
Slade cai nas malhas da comissão
Parece que o interesse da Seybert Commission em desmascarar o
médium Slade foi suscitado por um artigo de J. W. Truesdell,
publicado no «Botton Facts of Spiritualism», Nova Iorque,
1883. Neste artigo, Truesdell alegava haver apanhado Slade em
fraude. A história narra um "incidente humorístico"
que ter-se-ia dado durante uma das sessões de Slade.
Truesdell conta que descobrira uma lousa com uma mensagem já
preparada, na sala de reunião. Subrepticiamente, acrescentou
outra mensagem de sua lavra: "Henry, cuidado com este
fulano; ele está de olho em si — Alcinda." Mais tarde,
quando a mensagem adulterada foi revelada, Truesdell
divertiu-se ao notar o desapontamento do médium.
Em 1885, o médium foi submetido à investigação da Seybert
Commission, em Filadélfia.
A carreira de Slade foi sempre muito acidentada. Como todo o
sensitivo de alta potencialidade, sempre sofreu os percalços
da fama e do descuido relativamente às condições da sua
faculdade. Dificilmente um médium mantém constante o nível
de sua produção. Toda a mediunidade apresenta flutuações
e, quase sempre, entra em declínio no fim da vida. Embora
existam, raros são aqueles que conseguem manter o equilíbrio
durante toda a existência. Particularmente, os médiuns de
efeitos físicos são os mais vulneráveis. O declínio das
suas faculdades paranormais muitas vezes arrasta-os à fraude,
num desesperado esforço para manter o seu prestígio e
satisfazer as exigências do daninho cortejo humano que se
cria ao seu redor. Por fim, acabam caindo numa ou noutra
armadilha preparada por inimigos gratuitos.
Na sua queda arrastam também aqueles que os investigaram
seriamente quando ainda produziam fenómenos autênticos,
deitando por terra todo um labor penoso de pesquisas pacientes
e criteriosas, arruinando a reputação de sábios honestíssimos.
Com isto, retardam desastradamente o avanço da ciência.
Provavelmente, quando a Seybert Commission o apanhou, Slade já
devia estar a notar o declínio da sua mediunidade. Rodeado
por investigadores hostis e exigentes, ele poderia ter
cometido alguma falha ou, o que é mais plausível, terse-ia
envolvido nas teias de uma cilada ardilosamente preparada.
O resultado foi um relatório inteiramente negativo por parte
da comissão. As suas declarações à comissão incluíram as
sessões que ele tivera com o prof. Zoellner.
Zoellner também nas garras
Diante das declarações de Slade, a comissão incumbiu o
prof. Fullerton da tarefa de ir à Alemanha para entrevistar
os colegas do prof. Zoellner, visando obter deles declarações
que pudessem desacreditar as suas conclusões favoráveis a
Slade. Era a caça às bruxas. Todo o expediente, por mais vil
e desonesto que fosse, estaria justificado pelos fins que se
pretendia atingir.
Em 1886, Fullerton entrevistou Wundt, Fechner e Scheibner,
professores da Universidade de Leipzig e Weber da Universidade
de Goettingen. Com excepção do prof. Weber, os demais
professores foram habilmente levados a concordar que as condições
mentais de Zoellner não eram normais.
Ao mesmo tempo, Fullerton estabeleceu, através de testemunhas
cruzadas, que Fechner estava parcialmente cego; que Scheibner
também sofria da vista e tinha dúvidas quanto ao seu próprio
julgamento relativo aos fenómenos. Quanto a Weber, este
estava em idade avançada e não sabia das deficiências dos
seus companheiros.
Depois destas patifarias, é desnecessário dizer que o relatório
da Seybert Commission foi recebido com indignação pelos
espiritualistas.
A reacção contra a comissão e a morte de Zoellner
O testamenteiro, Thomas R. Hazard, foi o primeiro a protestar
contra a falta de ética da Seybert Commission e contra os sórdidos
métodos por ela empregados, em total desacordo com a intenção
do testamento.
Seguiu-se-lhe A. B. Richmond, membro do tribunal de Pensilvânia,
que escreveu dois livros criticando a comissão. Logo após,
Podmore, através de um artigo publicado no «Modern
Spiritualism», denunciou a Seybert Commission como
delapidadora dos fundos legados por Seybert, bem como por
divergir da orientação testamentária concernente aos
objectivos a serem seguidos por ela.
Na Alemanha também houve reacção. O barão Hellenbach, num
artigo publicado em «Nascimento e Morte», descreveu a sua
decepção e amargura diante da atitude dos colegas de
Zoellner. Entretanto, Zoellner manteve-se na posse do seu
intelecto, até aos seus últimos momentos, disse ele.
Numa carta datada de 7 de Novembro de 1903 e enviada ao doutor
Isaac Funk, editor e investigador psíquico em Nova Iorque, em
resposta à sua indagação acerca de Zoellner, o doutor Karl
Bucher, Magnífico Reitor da Universidade de Leipzig, afirmou
que a informação recebida dos colegas de Zoellner estabelece
que, durante todos os seus estudos, aqui na Universidade, até
à sua morte, ele se manteve mentalmente sadio; mais ainda: em
perfeita saúde.
A causa da sua morte foi uma hemorragia cerebral, na manhã do
dia 26 de Abril de 1882, quando tomava o pequeno-almoço com a
sua mãe, em razão da qual veio a falecer logo após.
Zoellner nasceu em 1834. Faleceu, portanto, com 48 anos de
idade, razoavelmente jovem ainda. Quando iniciou as suas
experiências com Slade, em 1877, estava com 43 anos.
É bem provável que as declarações atribuídas aos colegas
de Zoellner tenham sido ou forjadas ou maliciosamente
induzidas por Fullerton, à custa de intrigas bem urdidas por
este. Verifica-se esta possibilidade devido à mútua
desmoralização atribuída àqueles professores.
Henry Slade terminou os seus dias de vida como alcoólico,
inteiramente despojado das suas faculdades mediúnicas.
Faleceu em dolorosa decrepitude física e mental, no sanatório
Michigan, em 1905. A vida tumultuada de Slade encerra uma
grande lição e uma advertência aos médiuns invigilantes.