Julian
Ochorowicz
Exerceu
a cátedra na Universidade de Lemberg.
Na Itália, teve oportunidade de constatar os extraordinários
fenômenos produzidos por Eusápia Paladino. Declarou na
"Gazeta Semanal Ilustrada", o seguinte:
"Quando me recordo de que, numa certa época, eu me
admirava da coragem de William Crookes em sustentar a
realidade dos fenômenos espíritas; quando reflito,
sobretudo, que li as suas obras com o sorriso estúpido que
iluminava a fisionomia dos seus colegas, ao simples enunciado
destas coisas, eu coro de vergonha por mim próprio e pelos
outros."
Fonte: ABC do Espiritismo de Victor Ribas Carneiro
O doutor Julian Ochorowicz (1850 - 1918), psicólogo e filósofo
polaco, lente de Psicologia e Filosofia na Universidade de
Lemberg, co-director desde 1907 do Institut Général
Psychologique de Paris, foi um dos mais ilustres e competentes
investigadores da "sugestão mental". A sua obra, A
Sugestão Mental, é um clássico da literatura parapsicológica.
Nela o doutor Ochorowicz faz extenso e minucioso relato das
suas investigações acerca dos fenômenos de telepatia. O seu
trabalho divide-se em diversas secções conforme as
diferentes modalidades de telepatia por ele encontradas em sua
extensa experiência pessoal. Vamos enumerar algumas delas:
Sugestão mental aparente; sugestão mental provável; sugestão
mental verdadeira; simpatismo orgânico; simpatismo e contágio;
transmissão dos estados emotivos; transmissão das idéias;
transmissão direta da vontade; ação da vontade e a questão
da "relação"; ação sem que o sonâmbulo saiba,
ou contra a sua vontade; sugestão mental a prazo; sugestão
mental à distância. Infelizmente é impossível tratar de
todas estas modalidades em tão curto espaço, mas faremos o
possível para expor pelo menos alguns exemplos interessantes.
Ochorowicz, no cap. I do seu livro,
confessa que inicialmente não acreditava na "sugestão
mental". Em 1867, em Lublin, pela primeira vez Ochorowicz
experimentou verificar a sugestão mental com um rapaz de 17
anos, assaz difícil de adormecer, mas que manifestava, depois
de hipnotizado, certos fenômenos curiosos. Ele reconhecia,
por exemplo, qualquer pessoa de suas relações que apenas lhe
tocasse nas costas com um só dedo. Deste modo ele conseguiu,
certa ocasião, distinguir sucessivamente 15 pessoas, algumas
das quais haviam entrado na sala depois de estar ele
adormecido. Certa ocasião, aconteceu-lhe identificar uma
senhora que penetrava na sala sem que ele soubesse e a qual
vira pela primeira vez alguns dias antes. Estes fatos, porém,
não convenceram Ochorowicz; nem outros mais evidentes ainda,
ocorridos com o mesmo sonâmbulo. Ele buscava fatos realmente
inexplicáveis. Seu cepticismo era muito acentuado e sua exigência
neste sentido muito grande. Ochorowicz procurou investigar
mais outros casos e terminou por encontrá-los.
O primeiro caso que ele classificou de "sugestão mental
verdadeira" ocorreu ocasionalmente com uma sua paciente.
Sugestão mental verdadeira
Em 25 de Janeiro de 1886, J. Ochorowicz comunicou à Sociedade
de Psicologia Fisiológica de Lemberg um relato de suas
observações e experiências de "sugestão mental à
distância" levadas a efeito com a srª. M., de 27 anos
de idade. Em Agosto de 1886, foram publicados alguns excertos
dessas experiências.
A srª. M. era cliente do doutor Ochorowicz. Tratava-se de uma
mulher jovem, aparentemente forte, bem constituída e de saúde
perfeita. Porém, esta senhora sofria, há algum tempo, de uma
histero-epilepsia, agravada, mais tarde, por acessos de mania
de suicídio.
Uma noite, após tê-la assistido durante um dos seus ataques
e declarando-se ela melhor, a seu próprio pedido o doutor
Ochorowicz resolveu retirar-se. Ficara apenas uma amiga da srª.
M. Apesar de vê-la bem disposta, o doutor Ochorowicz desceu
lentamente as escadas (ela morava no terceiro andar),
detendo-se várias vezes com o ouvido à escuta, perturbado
por um mau pressentimento. Chegado ao portão deteve-se mais
uma vez. De repente, a janela abriu-se com ruído, e ele viu o
corpo da srª. M. inclinar-se para fora. Ele precipitou-se
para o lugar onde ela devia cair. Maquinalmente, concentrou a
sua vontade no intuito de opor-se à sua queda. A doente, já
inclinada, deteve-se e recuou lentamente por sacudidelas.
A mesma manobra repetiu-se cinco vezes seguidas. Finalmente a
doente, como que fatigada, imobilizou-se, encostando-se no
parapeito da janela.
Ela não poderia ter visto o doutor Ochorowicz, porque era
noite e ele achava-se na parte não iluminada. Naquele
momento, a amiga que ficara com a srª. M. acudiu e agarrou-a
pelos braços, lutando para afastá-la dali. O doutor
Ochorowicz subiu as escadas rapidamente e encontrou a doente
num acesso de loucura. Depois de muita luta, foi conduzida ao
leito e posta em estado sonambúlico. Uma vez em sonambulismo
ela revelou que era seu intuito atirar-se mesmo pela janela,
mas que naquele momento, cada vez que tentara fazê-lo, uma
força a "reerguera por baixo". Não suspeitava que
o médico ainda estivesse presente. Aproveitara, então, a
ocasião para tentar o suicídio: "Entretanto pareceu-me
por momentos que estáveis ao meu lado ou por detrás de mim e
que não queríeis que eu caísse" — disse ela ao
doutor Ochorowicz.
Este incidente levou o médico a experimentar com a srª. M. a
"sugestão mental à distância". Ele costumava
adormecê-la de dois em dois dias. Era a rotina do seu
tratamento. Durante esses momentos ele observava-a e tomava
notas em seu memorial.
Dia 2 de Dezembro de 1885, Ochorowicz tinha a sua paciente
adormecida. Ele encontrava-se a certa distância da sua cama e
fingia tomar notas em seu caderno. Porém, interiormente,
concentrava sua vontade sobre uma ordem mental dada:
"erga a mão direita" — 1º minuto: ação nula; 2º
minuto: uma agitação na mão direita; 3º minuto: a agitação
aumenta, a doente franze as sobrancelhas e ergue a mão
direita!
Animado por este sucesso, o médico deu-lhe outra ordem
mental: "Levante-se lentamente com dificuldade e vá até
ele, com a mão estendida"!
E assim, sucessivamente, Ochorowicz conseguiu que sua paciente
obedecesse, com êxito, a várias ordens mentais. Em algumas
ocasiões as ordens mentais não eram atendidas imediatamente,
e a paciente parecia embaraçar-se ao cumpri-las. Todas as
ordens mentais eram dadas silenciosamente e sem gestos.
Ochorowicz relatou ao todo 14 sessões levadas a efeito de 2
de Dezembro de 1885 a 5 de Fevereiro de 1886, durante as quais
ele fez um número enorme de experiências de sugestão
mental, com grande êxito e com a mesma srª. M.
Ochorowicz teve a oportunidade de registrar outros casos
semelhantes ocorridos com diversas pacientes tratadas por ele
em sua clínica normal. Naquela época, estava muito em voga o
hipnotismo, e grande número de psiquiatras usava-o
correntemente e com êxito no tratamento das moléstias
nervosas. Hoje em dia, infelizmente, generalizou-se o uso de
drogas...
As experiências no Havre
Julian Ochorowicz tomou conhecimento através de uma conferência
das experiências de sugestão mental à distância que os
doutores Pierre Janet e Gibert haviam feito com a srª. Léonie,
no Havre. No mês de Novembro de 1885, o doutor Paul Janet,
tio do doutor Pierre Janet, leu perante a Sociedade de
Psicologia Fisiológica uma comunicação do seu sobrinho, o
doutor Pierre Janet, que era professor de Filosofia no Liceu
do Havre. A sua tese levava um título um tanto vago:
"Sobre alguns fenômenos de sonambulismo". Porém, o
conteúdo da tese encerrava assunto muito grave, pois colidia
com a posição fisiologista que já imperava em amplos
sectores das escolas psicológicas. O nome da Sociedade de
Psicologia Fisiológica faz presumir que o título da tese foi
propositadamente vago para lá ter entrada. Entretanto,
tratava-se de uma série de observações feitas sobre fatos
que evidenciavam não só a existência de fenômenos de
"sugestão mental" em geral, mas, o que era mais
extraordinário, de "sugestão mental à distância de
alguns quilômetros e sem que o paciente o soubesse!".
O comunicado de Pierre Janet certamente provocou um impacto na
assistência. O auditório, conforme declarou o doutor
Ochorowicz, "prestou a isto a maior atenção, não sem
uma grande dose de incredulidade. O sr. Janet absteve-se de
qualquer teoria; somente relatava os fatos, devia crer-se ou não.
A comunicação ouvida em silêncio, foi em seguida passada
sob silêncio, salvo algumas considerações de um caráter
mui geral, formuladas pelo sr. Charcot, nosso
presidente".(4)
Ochorowicz já houvera feito inúmeras experiências de
"sugestão mental", mas a curta distância,
achando-se o paciente sob ação hipnótica, como no caso da
srª. M. Em outra ocasião uma nova paciente. A srª. B.
estava desperta, mas achava-se a pequena distância e apenas
executou algumas ordens mentais em estado de vigília. Porém,
os doutores Pierre Janet e Gibert foram bem sucedidos,
adormecendo o paciente à distância e dando-lhe ordens
mentais que foram obedecidas. O caso interessou vivamente
Ochorowicz:
"Eis o que me pareceu estranho" — diz ele —
"É este último fenômeno que eu queria verificar desde
logo, reconhecendo o seu valor por uma teoria de sugestão e
pelo problema do magnetismo em geral. É evidente que uma
semelhante constatação seria a morte da teoria exclusiva do
hipnotismo contemporâneo, que se gabava de ser o sucessor legítimo
do extinto magnetismo animal, e que não deveria de ora em
diante ocupar senão um lugar mui modesto ao lado do seu
predecessor. (...)". (5)
Interessado em obter pessoalmente, uma confirmação ou negação
dos fatos relatados pelos doutores Janet e Gibert, Ochorowicz
dirigiu-se ao Havre, acompanhado de alguns colegas entre eles
o famoso investigador, F. W. H. Myers, que naquela época
estava em plena atividade em busca de fenômenos de telepatia.
Myers fez constar o episódio do Havre em sua obra clássica
Human Personality and its Survival of Bodily Death (6). Os
outros observadores eram o professor Paul Janet, doutores
Jules Janet e A. T. Myers (irmão de F. W. H. Myers) e o sr.
Marillier.
Entre 3 e 9 de Outubro de 1885 puderam estes senhores observar
inúmeras vezes a srª. Léonie ser hipnotizada à distância
de mais de dois quilômetros e receber ordens mentais como,
por exemplo, sair à rua e ir até ao consultório dos
doutores Janet e Gibert.
Estes fatos colocam a hipnose numa nova categoria de fenômenos
e, em parte, restabelece as antigas hipóteses do
"magnetismo animal", muito embora não invalidem as
hipóteses de Pavlov. Apenas elas sugerem que, ao lado das
bases fisiológicas do fenômeno da hipnose, deve cogitar-se
da possibilidade de existir algo, ainda não bem conhecido,
capaz de provocar a inibição cortical e acionar o paciente,
levando-o a obedecer a determinadas ordens telepáticas
emanadas do operador.